A luta pela desigualdade
Por Alberto Gonçalves (Diário de Notícias) 29.8.09
A notícia de que as reprovações no ensino "básico" e "secundário" caíram vertiginosamente durante os últimos anos apanhou-me desprevenido. Sinceramente, julgava que o eng. Sócrates e a sra. ministra já tinham conseguido erradicar total e definitivamente tal calamidade, e que a figura do "chumbo" estava hoje restrita às decisões de Cavaco Silva sobre as leis governamentais.
Erro meu. Pelos vistos, ainda há alunos que reprovam. Permitam-me uma pergunta: como? Permitam-me agora uma resposta: não é fácil e, em abono da verdade, há que reconhecer os esforços do Governo em sentido contrário, embora no mesmo sentido dos go
vernos anteriores. Se bem se lembram, foi o presente ministério da Educação que alertou para o peso de cada reprovação no sensível bolso dos contribuintes. Foi o ME que transformou a reprovação numa tortura burocrática que Kafka não se atreveu imaginar. Foi o ME que inventou o novo "Estatuto do Aluno", o qual praticamente ilegaliza as "retenções". Foi o ME que vinculou a avaliação dos professores e das escolas às notas dos alunos. Foi o ME que deixou alunos com 8 ou 9 negativas "transitarem" de ano. Foi o ME que dissipou a pouca autoridade que restava aos decentes sobre as crianças. Foi o ME que baixou a exigência dos exames nacionais para níveis acessíveis a uma ou, vá lá, a duas alforrecas. Foi, enfim, o ME que criou as Novas Oportunidades de forma a legitimar com diplomas do 9.º e do 12.º anos os analfabetos não legitimados pelo "ensino" tradicional.
Perante isto, o eng. Sócrates nega a existência de "facilitismo", o que é um facto se tivermos em conta que, por enquanto, o Estado não distribui doutoramentos por recém-nascidos. Mas é só isso que falta para consagrar de vez o maravilhoso sistema que, sob o argumento da igualdade, esmera-se em distinguir a criança privilegiada da pelintra: a primeira beneficia da formação familiar, de colégios decentes e do que calhar; a segunda não tem o que a salve do dispendioso atraso de vida que é a escola pública.
Termino com um exemplo. Nas suas recomendáveis memórias (A Personal Odissey), o economista Thomas Sowell lembra o ano do liceu em que falhou semanas de aulas devido a doença. Ao regressar à escola, soube que a sua turma beneficiara de uma espécie de passagem colectiva que o obrigava, também a ele, a mudar-se para o ano seguinte. Certo de que não fazia sentido passar de ano sem ter aprendido a matéria do ano anterior, Sowell iniciou (sozinho: filho de pretos pobres, os seus familiares não eram exactamente participativos no "ambiente" escolar) uma pequena batalha com as autoridades do liceu de modo a que o deixassem reprovar. Ganhou. Anos depois, graduou-se em Harvard e na Columbia e tornou-se um dos mais lúcidos intelectuais americanos, felizmente ainda vivo. No Portugal do eng. Sócrates e da sra. ministra, subordinado ao fogo fátuo, nem o raro espírito de Sowell teria hipótese: naquilo a que, por eufemismo ou ironia, se chama a escola democrática, os fracos perdem sempre e perdem tudo. Excepto o ano.
O eng. Sócrates, que correu mais do que Naide Gomes a aceitar o prémio, aproveitou para criticar a "cultura da maledicência". Na insuspeita opinião do primeiro-ministro, a atribuição da medalha à sua pessoa "é um acto de coragem e até de nobreza". Moita Flores, outro insuspeito, acha igualmente que é preciso coragem "para agradecer quando a mediocridade adora que se diga mal".
É um facto: o País está repleto de maledicentes. E medíocres. E biltres. E ressabiados, canalhas, patifes, fuinhas e sifilíticos. São, em suma, todos os que não presenteiam o eng. Sócrates com pechisbeques dourados. Felizmente, no meio do lodaçal há ilhas paradisíacas de grandeza. Moita Flores é uma ilha assim. Até porque o próprio já a referiu, é escusado insistir na coragem que a oferta da medalha implica, e "coragem" é logo a primeira palavra que ocorre para classificar um herói que ousa adular o chefe do Governo. Mas importa alertar para as perseguições a que, de agora em diante, o herói está sujeito. Quantas figuras foram capazes de feito semelhante? A História não regista muitas. E cada uma amargou o inferno em vida: pressões, ameaças, chantagem, a ocasional tortura, o eventual degredo.
Porém, o sofrimento vale a pena quando, segundo o eng. Sócrates, a homenagem ao eng. Sócrates "honra a cultura da liberdade, porque a liberdade é irmã da tolerância e da compreensão". No caso, parece que também vem a ser prima da cara de pau e cunhada da pobreza de espírito, isto para não mencionar os restantes familiares da "liberdade respeitosa" tão apreciada pelo eng. Sócrates
Por Alberto Gonçalves (Diário de Notícias) 29.8.09
A notícia de que as reprovações no ensino "básico" e "secundário" caíram vertiginosamente durante os últimos anos apanhou-me desprevenido. Sinceramente, julgava que o eng. Sócrates e a sra. ministra já tinham conseguido erradicar total e definitivamente tal calamidade, e que a figura do "chumbo" estava hoje restrita às decisões de Cavaco Silva sobre as leis governamentais.
Erro meu. Pelos vistos, ainda há alunos que reprovam. Permitam-me uma pergunta: como? Permitam-me agora uma resposta: não é fácil e, em abono da verdade, há que reconhecer os esforços do Governo em sentido contrário, embora no mesmo sentido dos go
vernos anteriores. Se bem se lembram, foi o presente ministério da Educação que alertou para o peso de cada reprovação no sensível bolso dos contribuintes. Foi o ME que transformou a reprovação numa tortura burocrática que Kafka não se atreveu imaginar. Foi o ME que inventou o novo "Estatuto do Aluno", o qual praticamente ilegaliza as "retenções". Foi o ME que vinculou a avaliação dos professores e das escolas às notas dos alunos. Foi o ME que deixou alunos com 8 ou 9 negativas "transitarem" de ano. Foi o ME que dissipou a pouca autoridade que restava aos decentes sobre as crianças. Foi o ME que baixou a exigência dos exames nacionais para níveis acessíveis a uma ou, vá lá, a duas alforrecas. Foi, enfim, o ME que criou as Novas Oportunidades de forma a legitimar com diplomas do 9.º e do 12.º anos os analfabetos não legitimados pelo "ensino" tradicional.Perante isto, o eng. Sócrates nega a existência de "facilitismo", o que é um facto se tivermos em conta que, por enquanto, o Estado não distribui doutoramentos por recém-nascidos. Mas é só isso que falta para consagrar de vez o maravilhoso sistema que, sob o argumento da igualdade, esmera-se em distinguir a criança privilegiada da pelintra: a primeira beneficia da formação familiar, de colégios decentes e do que calhar; a segunda não tem o que a salve do dispendioso atraso de vida que é a escola pública.
Termino com um exemplo. Nas suas recomendáveis memórias (A Personal Odissey), o economista Thomas Sowell lembra o ano do liceu em que falhou semanas de aulas devido a doença. Ao regressar à escola, soube que a sua turma beneficiara de uma espécie de passagem colectiva que o obrigava, também a ele, a mudar-se para o ano seguinte. Certo de que não fazia sentido passar de ano sem ter aprendido a matéria do ano anterior, Sowell iniciou (sozinho: filho de pretos pobres, os seus familiares não eram exactamente participativos no "ambiente" escolar) uma pequena batalha com as autoridades do liceu de modo a que o deixassem reprovar. Ganhou. Anos depois, graduou-se em Harvard e na Columbia e tornou-se um dos mais lúcidos intelectuais americanos, felizmente ainda vivo. No Portugal do eng. Sócrates e da sra. ministra, subordinado ao fogo fátuo, nem o raro espírito de Sowell teria hipótese: naquilo a que, por eufemismo ou ironia, se chama a escola democrática, os fracos perdem sempre e perdem tudo. Excepto o ano.
O eng. Sócrates, que correu mais do que Naide Gomes a aceitar o prémio, aproveitou para criticar a "cultura da maledicência". Na insuspeita opinião do primeiro-ministro, a atribuição da medalha à sua pessoa "é um acto de coragem e até de nobreza". Moita Flores, outro insuspeito, acha igualmente que é preciso coragem "para agradecer quando a mediocridade adora que se diga mal".
É um facto: o País está repleto de maledicentes. E medíocres. E biltres. E ressabiados, canalhas, patifes, fuinhas e sifilíticos. São, em suma, todos os que não presenteiam o eng. Sócrates com pechisbeques dourados. Felizmente, no meio do lodaçal há ilhas paradisíacas de grandeza. Moita Flores é uma ilha assim. Até porque o próprio já a referiu, é escusado insistir na coragem que a oferta da medalha implica, e "coragem" é logo a primeira palavra que ocorre para classificar um herói que ousa adular o chefe do Governo. Mas importa alertar para as perseguições a que, de agora em diante, o herói está sujeito. Quantas figuras foram capazes de feito semelhante? A História não regista muitas. E cada uma amargou o inferno em vida: pressões, ameaças, chantagem, a ocasional tortura, o eventual degredo.
Porém, o sofrimento vale a pena quando, segundo o eng. Sócrates, a homenagem ao eng. Sócrates "honra a cultura da liberdade, porque a liberdade é irmã da tolerância e da compreensão". No caso, parece que também vem a ser prima da cara de pau e cunhada da pobreza de espírito, isto para não mencionar os restantes familiares da "liberdade respeitosa" tão apreciada pelo eng. Sócrates
Nem sabia que esta ministra tinha pernas...
ResponderEliminarPois eu pensava que era esta a nova imagem que o Sócrates lhe arranjou paa seduzir os professores... Bahhhhh!
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