Resistentes querem mais gente para dar vida ao patrimónioCentro Histórico foi classificado, há 12 anos, pela Unesco mas moradores sentem-se abandonados
(JN) 5.12.2008 CARLA SOARES
"Falta tudo, sobretudo pessoas". O desabafo de Armando Costa, morador em S. Nicolau, é comum ao de muitos outros residentes nas quatro freguesias do Centro Histórico do Porto. Doze anos após ter sido conseguido o título de Património da Humanidade, quem nele habita fala de um lugar cada vez mais vazio, não só em termos de pessoas mas de movimento, e os que vão ficando contam os dias até a sua casa ser requalificada.
Ali perto, no Café Calhambeque, em frente à Sé Catedral, Elisabete Oliveira, de 32 anos, servia os clientes e contava que há quatro anos já não mora na freguesia. "Casei e fui para Gaia porque aqui não tenho condições, muito menos para criar o meu filho", explicou, ao JN, enumerando as casas que estão "a cair". Da sua geração, diz que poucos vão ficando, porque "não há incentivos" que os chamem, mas, ao fim-de-semana, regressam para visitar os pais.
Descendo a escadaria até ao Largo do Colégio, junto à Igreja dos Grilos, há habitações recuperadas e moradores realojados. O que falta? "Tudo. Não temos aqui nada. O que querem é tirar-nos daqui", queixa-se Caetano, de 42 anos. Apesar de, há cinco anos, ter mudado para uma das novas habitações, queixa-se que entra água no seu duplex, que pertence a S. Nicolau, na fronteira com a Sé. Além disso, "não há infra-estruturas e os espaços comerciais estão vazios". Mas o ambiente, que "era degradado", está bem melhor, confessa, recordando que, devido à toxicodependência, a filha "nem podia ir à janela".
"Sou a ovelha negra", atirou, para justificar o porquê de ter ficado, ao contrário dos irmãos.
Descendo a Rua de Santana, a pequena mercearia local, que fica do lado da Sé, era palco de convívio entre moradores. Armando Costa, que ali mora há 45 anos, também viu a sua casa ser recuperada há mais de uma década. "A casa tem boas condições", conta. à volta falta "tudo". "Tiram as pessoas daqui e não as voltam a pôr cá. É sempre a mesma história", lamenta. O dono da mercearia, José Carvalho, tem 38 anos e vive ali desde sempre. Questionado sobre o que melhorou de há 12 anos para cá, diz que "as coisas mudaram um pouco", com "mais policiamento e uma parte das casas a ser recuperada", porque "não se pode fazer tudo de uma vez". Já a clientela, "desceu muito" e há "pouca juventude".
"A Baixa está um pouco esquecida", desabafa o comerciante, falando da pouca habitação e das casas que continuam degradadas. Apesar de já ter tido direito a uma casa, o seu pai, que vive por cima da mercearia, continua à espera. E já mais ninguém vive no prédio.
Na Ribeira, freguesia de S. Nicolau, duas moradoras queixavam-se de que "já não há movimento", e "não há festas". "Isto não melhorou nada, cada vez está pior", garantiram mãe e filha, pelo fraco chamariz e negócio no local. A filha Cristina, de 32 anos, saiu da freguesia há cinco anos. "Disseram que eu não tinha direito a casa, mas há tanta por aí fechada", explicou, garantindo que preferia viver ali, onde trabalha num café.
Sandra Silva, de 35 anos, mora na Rua do Cimo do Muro, na Ribeira. Mas conta que saiu "por causa dos ratos" e após queixar-se à senhoria e à Câmara. Agora quer ser realojada. Há sete meses que dorme "no chão", em casa da mãe com o marido e os três filhos.
De S. Nicolau em direcção a Miragaia, vários idosos conviviam na Associação Social e Cultural da freguesia. "Queríamos voltar para a nossa Ribeira e não nos deixaram. Era o meu sonho", recordou Carminha Campos, de 69 anos, que colabora com a instituição.
Emília Borges tem mais motivos para sorrir: foi realojada na Rua de Miragaia. Porém, tal não lhe tira a preocupação. O antigo prédio, onde antes residia, fica mesmo ao lado, apenas separado por uma viela. "Nem consigo dormir descansada com medo de que possa cair para cá", contou.
"Acho que a freguesia nem deve vir no mapa", comentava, entretanto, Florinda Pereira, também de Miragaia, explicando que "as crianças não têm onde brincar e as casas estão degradadas". Na casa dos 70 anos, Joaquim Teixeira e Maria Emília contam, por sua vez, que estão a "viver provisoriamente, há seis anos, num armazém, sem janelas", enquanto não termina a obra para a nova casa.
Na Rua de S. Bento da Vitória, as casas recuperadas também se contam pelos dedos. "Se é Património da Humanidade, devia estar melhor tratado", comentou Bruna, de 16 anos, para quem tudo está "muito morto". José Dias, funcionário judicial, trabalha na freguesia. O galardão, defende, "tem de reflectir-se na conservação do que é património". E a zona "está extremamente mal conservada, suja e degradada".
1 comentário:
O Centro Histórico do Porto nunca melhorará se não houver quem reivindique em nome das populações. Foram para isso eleitos os Presidentes de Junta, mas segundo sei, dos 4 da Zona Histórica (todos do PS), apenas 1 (o de S.Nicolau) se faz ouvir (à sua maneira), quando necessário, nas Assembleias Municipais. Os demais entram mudos e saem calados!
Não falam porque não sabem? ou serão muito timidos para umas coisas mas não para as outras? Aposto na 1ª, embora a 2ª não seja menos verdade... vocês sabem do que é que eu estou a falar...
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